Reza a lenda que, na época em que os árabes ocuparam a Península Ibérica, um rei mouro poderoso mandou erguer um castelo num promontório sobranceiro ao Rio Vez em Arcos de Valdevez, no lugar da Giela.

Ora, este majestoso rei tinha uma linda filha, morena, com longos cabelos e olhos negros, possuidora de uma beleza estonteante, que vivia muito infeliz. Isto porque, consciente do magnetismo da sua esbelta filha, o rei mouro não a deixava sequer aproximar das janelas do castelo, mantendo-a em recato, longe dos olhares externos – não fora ela despoletar um amor que pusesse em causa um casamento de conveniência com um califa, à medida dos seus reais anseios.
Todavia, a princesa com a ajuda de alguns servos, saiu do palácio sozinha, cavalgando pelas margens verdejantes do Vez. Deslumbrada com as suas águas cristalinas desmontou e mergulhou nelas os descalços pés, desfrutando descontraída da sua frescura.
Subitamente, sentiu-se observada… olhou para a outra margem e enxergou um cavaleiro com armadura cintilante sobre um branco cavalo. De dentro da viseira do seu elmo, dois olhos de um azul mais azul que o céu fitavam enfeitiçados os negros e lindos olhos da morena princesa. O arrebatamento foi mútuo – uma daquelas histórias de amor à primeira vista… o momento foi mágico e a felicidade parecia interminável.
Mas afinal, o mágico momento foi abruptamente interrompido: descendo a colina em cavalgada frenética, um grupo de cavaleiros mouros recolheram a princesa e atravessaram o rio com o intuito de confrontar o destemido cavaleiro cristão que se aventurava sozinho pelas Terras do Vez.
O ágil cavaleiro, escapuliu pelas matas sem deixar rasto.
Não mais a princesa esqueceu aquele par de olhos azuis, mais azuis do que o céu.
Não mais a princesa viu ou esteve com aquele cavaleiro cristão.
Não mais a princesa casou com um califa rico, como era pretensão do seu pai.
Todavia, sempre que conseguia esgueirar-se da vigilância paterna, descia o rio e escondia-se nos arbustos, à espera, na espectativa reencontra-se aqueles olhos azuis, mais azuis do que o céu.
E assim a lenda garante que, se passear pelas margens do Rio Vez e se sentir observado por um par de lindos olhos negros, já sabe que é a Moira de Giela, que está atrás dos arbustos à espera do seu cavaleiro de cavalo branco e olhos azuis, mais azuis do que o céu.

A LENDA DA MOIRA ENCANTADA DE GIELA – 2017

1

NO TEMPO EM QUE OS INFIÉIS
OCUPAVAM O ALTO MINHO,
GRANDE CASTELO EXISTIA
NESTE FORMOSO CANTINHO.

EM GIELA EDIFICADO
UM REI MOURO ALI O FEZ,
JUNTANDO GRANDE IMPONÊNCIA
ÀS BELAS TERRAS DO VEZ.

2

AÍ VIVIA UM REI MOURO
E SUA TÃO BELA FILHA,
CABELO NEGRO, MORENA,
E UNS OLHOS DE MARAVILHA.

TEMENDO-SE DE SUA BELEZA
NEM AS JANELAS LHE ABRIA,
DESTINADA A UM CALIFA
MUITO A PRINCESA SOFRIA…

3

UM CERTO DIA, PORÉM,
ENFEITIÇOU OS CRIADOS,
QUE LHE DERAM UM CAVALO
E CAVALGOU PELOS PRADOS.

NAS ÁGUAS DO RIO VEZ
MOLHOU OS PÉS, NESSE INSTANTE,
SENTIU NA PELE MACIA
SENSAÇÃO INEBRIANTE.

4

DE REPENTE, A PRINCESA,
SOBRE SI SENTIU O OLHAR,
DE UM DISTINTO CAVALEIRO
QUE A ESTAVA A OBSERVAR.

POR ENTRE A VISEIRA DO ELMO
DOIS OLHOS AZUIS DESCOBRIU,
SEU OLHAR DE OLHOS NEGROS
EM TAL AZUL SE FUNDIU.

5

TAL FOI O ARREBATAMENTO,
TÃO FORTE FOI A PAIXÃO,
QUE NEM DERAM PELOS MOUROS
QUE VINHAM CONTRA O CRISTÃO.

O ENCANTO FOI QUEBRADO
POR ENTRE GRITOS E BRADOS
E O CAVALEIRO ESCAPOU-SE,
POR ENTRE OS BRENHOS CERRADOS.

6

E NUNCA MAIS A PRINCESA
VIU TÃO BELO CAVALEIRO,
SENDO LEVADA DE VOLTA
AO SEU TRISTE CATIVEIRO.

JAMAIS CASOU COM CALIFA
VIVENDO SEMPRE A PENSAR
NAQUELE BELO CAVALEIRO
COM TÃO CORUSCANTE OLHAR.

7

CONSTA QUE A BELA PRINCESA
DESCIA ÀS MARGENS DO VEZ
ESCONDIDA, ESPERANDO VER,
O CAVALEIRO OUTRA VEZ.

QUEM JUNTO AO VEZ SE PASSEIA
E SENTE FUGAZ OLHADELA,
É ELA, QUE ANDA POR LÁ,
É A MOIRA DE GIELA.

Carlos Azevedo

Nascido em Vila Real em 1964, Carlos Azevedo estudou piano na infância e ingressou no Conservatório de Música do Porto em 1982, frequentando os Cursos Superiores de Piano e Composição.
Foi o primeiro aluno inscrito na Escola Superior de Música do Porto (atual ESMAE), em 1986, e aí concluiu o curso de Composição.
Prosseguiu para o Mestrado em Composição na Universidade de Sheffield (1996), sob a orientação de George Nicholson, onde está a concluir o Doutoramento.
O interesse pelo jazz surge nos anos do Conservatório, acabando por inaugurar a Escola de Jazz do Porto enquanto professor de piano, em meados dos anos 80, tendo sido professor de piano jazz de David Martins – o produtor do projeto Sente a História.
Em 2001 criou a primeira Licenciatura em Jazz do país, na ESMAE. Partilha com Pedro Guedes, desde 1999, a Direção Musical da Orquestra Jazz de Matosinhos.
A suite Lenda para decateto foi apresentada nos Festivais de Jazz do Porto (1999), Nantes (2000) e Guimarães (2001), e deu origem ao seu primeiro álbum em nome próprio. A fatia maior das suas composições e arranjos no campo do jazz tem sido escrita para a Orquestra Jazz de Matosinhos, mas recebe também encomendas para outras formações (European Youth Jazz Orchestra, Brussels Jazz Orchestra e David Linx). Em 2003 foi finalista do Concurso Internacional de Composição da Brussels Jazz Orchestra, conquistando o primeiro prémio no ano seguinte.
Das suas obras mais recentes, destacam-se Drone Variations para quarteto de clarinetes e banda sinfónica, 5 Movimentos Sobre o Mar para quarteto de cordas e piano, Verazin para quarteto de cordas e Crossfade para orquestra sinfónica, orquestra de jazz e solista. Em 2012 estreou a ópera Mumadona, com libreto de Carlos Tê.
Professor de Análise na ESMAE, Carlos Azevedo exerceu aí funções diretivas como Vice-Presidente entre 2002 e 2011. Continua a codirigir a Orquestra de Jazz de Matosinhos, para a qual escreve composições e arranjos originais, onde se apresenta também, frequentemente, como pianista.
Sendo ainda possuidor de uma interessante obra coral, esta é a razão principal pela qual foi um dos compositores escolhidos para realizar em música duas lendas do Alto Minho.

Leave a Reply