No tempo em que mouros e cristãos lutavam pelo domínio da Península Ibérica, lá para os lados do Sul, vivia num palácio majestoso Alboazar – um alcaide mouro poderoso. Este, tinha uma filha chamada Zahara, cuja beleza indescritível ganhou grande fama e passou fronteiras, nomeadamente para o lado do inimigo cristão, onde chamou a atenção do Rei de Leão, de seu nome: D. Raimundo.
Como muitas vezes acontecia na Idade Média, na casa dos aristocratas mais ricos, organizavam-se muitas vezes, concertos, festas, representações teatrais, tertúlias, enfim… as mais diversas formas de entretenimento. Para esses serões, o Rei ou o Nobre convidavam para os seus palácios a sua corte e contratavam muitas vezes trovadores, bardos e outros artistas errantes.
É aqui que o D. Raimundo, tomado pela curiosidade em conhecer a rara beleza de Zahara, disfarçou-se de trovador e conseguiu entrar no palácio do alcaide mouro, por ocasião de uma dessas festas. Uma vez lá, deparou-se com a princesa e de imediato se enamorou. A paixão nasceu forte e D. Raimundo seduziu a jovem e fugiu com ela para as terras da Galiza.
Algum tempo passado, Alboazar não havia esquecido a perda e o ultraje. Fez-se ao caminho e resolver utilizar o mesmo expediente do nobre cristão. Também ele se disfarçou de trovador, penetrou numa festa e, com as suas cantigas, encantou Dona Urraca – a esposa legitima do D. Raimundo. Esta, ficou de tal forma enamorada que abandonou marido e filhos e fugiu com Alboazar, rumo ao Sul.
Humilhado pela traição e abandono da esposa, D. Raimundo depressa esqueceu a beleza e encanto de Zahara. Disfarçou-se de cavaleiro e rumou ao castelo de Alboazar a fim de participar num torneio por este organizado. Após o torneio, pelo cair da noite, conseguiu aceder ao quarto do rival, onde prendeu e amordaçou Dona Urraca e o amante. Em seguida, fugiu rapidamente, levando consigo os dois como prisioneiros.
Reza a lenda que, no caminho de regresso para a Galiza, ao passar por Carreço, atravessou um monte, no qual assassinou Alboazar – ficando então o local a ser conhecido como: Monte da Dor – hoje Montedor. Dona Urraca chorou desconsolada a morte do seu amor, o que ainda enfureceu mais o D. Raimundo. Cego pelo ciúme e despeito, logo após descer Montedor, amarrou uma âncora ao pescoço da rainha e lançou-a nas profundezas do primeiro rio que encontrou…
… o tal rio, desde essa altura, passou a ser conhecido como – Rio Âncora.

Letra da canção da lenda do Rio Âncora

1

DIZ A LENDA FABULOSA
QUE O REI MOURO ALBOAZAR,
TINHA UMA FILHA FORMOSA,
MOURA LINDA DE ENCANTAR,
ZAHARA, ESPLENDOROSA,
TODOS A QUERIAM AMAR.

2

D. RAIMUNDO, DE LEÃO,
DE TROVADOR DISFARÇADO,
FOI AO PALÁCIO PAGÃO
FICOU LOGO APAIXONADO;
RAPTOU ZAHARA, E ENTÃO,
LEVOU-A P’RO SEU REINADO.

3

O REI MOURO ALBOAZAR
JUROU VINGANÇA TAMANHA,
AO REINO DE LEÃO FOI DAR,
USANDO GRANDE ARTIMANHA,
SEM RAIMUNDO SUSPEITAR,
NO SEU CASTELO SE ENTRANHA.

4

A DONA URRACA CORTEJOU,
COM TAMANHA PERSUASÃO,
QUE ELA MESMA ENTREGOU
AO REI MOURO O CORAÇÃO;
MARIDO E FILHOS DEIXOU
FUGINDO C’O REI PAGÃO.

5

ALBOAZAR TINHA VINGADO
A OFENSA DO REI CRISTÃO.
D. RAIMUNDO, EXASPERADO,
PARTIU EM PERSEGUIÇÃO
DAQUELE PAR DESONRADO
P’RA VINGAR A HUMILHAÇÃO.

6

NO SEU CASTELO GUARDADO
ALBOAZAR FEZ FESTANÇA;
D. RAIMUNDO DISFARÇADO,
A SUA ALCOVA ALCANÇA,
VENDO O CASAL, DESPEITADO,
CONSUMOU SUA VINGANÇA.

7

ASSIM, EM BREVES INSTANTES,
NUM RASGO DE FORÇA E SORTE,
AMORDAÇOU OS AMANTES,
RAPTOU-OS, RUMO AO NORTE,
MAS SEUS ATOS PROVOCANTES
GERAVAM ÓDIO DE MORTE.

8

CHEGADOS A MONTEDOR,
POR NÃO PODER AGUENTAR
AQUELES GESTOS DE AMOR,
ASSASSINOU ALBOAZAR;
URRACA SENTIA TAL DOR
QUE A NÃO PODIA DISFARÇAR.

9

QUANDO DE MONTEDOR ZARPOU
AO PESCOÇO DA RAINHA
UMA ÂNCORA AMARROU
E, NO SENTIDO QUE VINHA,
NO RIO QUE ATRAVESSOU
AFOGOU A POBREZINHA

10

ESSE RIO ENCANTADOR
(PELA MORTE É RECORDADO)
GUARDA ESSA LENDA DE DOR;
RIO ÂNCORA É CHAMADO,
IMORTALIZANDO O AMOR
DE UM CASAL APAIXONADO.

Eurico Carrapatoso

Natural de Mirandela e com 55 anos de idade, é um dos mais profícuos compositores portugueses. Conhecido em Portugal e a nível internacional, é possuidor de uma vastíssima obra abarcando: musical coral, sinfónica, de câmara, ópera, música concertante e até música cénica, sendo o mais distinguido compositor português vivo.
Foi agraciado com mais de uma dezena de prémios nacionais, onde se destaca: ter sido feito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República Jorge Sampaio em 2004.
Para além das distinções no plano interno, representou Portugal na Tribuna Internacional de Compositores da UNESCO em Paris em 1998, 1999 e 2006.
No que à música coral diz respeito é considerado a referência no momento, quer a nível nacional como internacional e, por isso, é a escolha certa para ser compositor de dois corais sobre as nossas lendas.